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A longa noite dos museus

Berlim é uma cidade que dorme mais no inverno, quando a temperatura chega a níveis insuportáveis. O termômetro registrou esta semana 19 graus negativos, algo que não se repetia há 22 anos. Sábado, porém, alemães e turistas têm um motivo forte para se agasalhar e sair de casa: a Longa Noite dos Museus. Nesse dia, pelo menos 60 instituições estarão abertas das 18 horas às duas da madrugada. O ingresso para a maratona cultural custa 15 euros (R$ 40) e inclui transporte público (ônibus, metrô ou trem). Menores de 12 anos não pagam.

Exposições inéditas, tours guiados com tradução para o inglês, espanhol, francês e italiano e eventos especiais esperam os visitantes. A 26ª edição da Longa Noite dos Museus, como já antecipei, chama-se “Berlim – Capital da Ciência”, pois tem como eixo temático a vida e obra do filósofo, cientista e naturalista Alexander van Humboldt, morto há 150 anos.

Fundação Helmut Newton, no mesmo prédio do Museu da Fotografia, exibe dezenas de trabalhos do fotógrafo, morto em 2004, reunidos em livro da Taschen

    Fundação Helmut Newton exibe dezenas de trabalhos do fotógrafo

 

Há muito o que se ver e percorrer, mas posso destacar, desde já, ”Correto e anarquista”, com trabalhos e objetos pessoais recém-descobertos do artista George Grosz, na Academia de Artes; “Sumo”, o sonho que virou verdade em livro editado pela Taschen, de Helmut Newton, e “Os três garotos de Pasadena”, dos seus ex-assistentes Mark Arbeit, George Holz e Just Loomis, no Museu da Fotografia;  “Utopia Matters”, no Deutsche Guggenheim; e a exposição de fotos, roupas e pôsteres que refazem a carreira da atriz Romy Schneider (1938-1982), no Museu do Filme e da TV.

E para quem achava que tudo o que se disse sobre os 20 anos da reunificação alemã era pouco, a Berlinische Galerie exibe “Berlim 89/09 – Arte entre os Traços do Passado e Futuros Utópicos”. Já a East Side Gallery, a maior galeria a céu aberto de Berlim – são 106 pinturas feitas numa superfície de 1,3 km do que restou do muro – estará à disposição de quem quiser deixar a sua marca gravada no concreto.

Três meios de fazer jornalismo

Jornalistas gostam de saber como outros jornalistas trabalham. E foi o que fizemos na nossa temporada alemã, eu, Ernest Kanjo e Tabasi Parfait, dos Camarões. Solicitamos e fomos atendidos por três veículos distintos: a Deutsche Welle, empresa de TV e radiodifusão; o Tageszeitung, jornal de esquerda de circulação nacional; e a novata revista Concerti, voltada para os amantes da música clássica. 

Eu, Ernest e Tabasi em frente à Deutsche Welle

Eu, Ernest e Tabasi em frente à Deutsche Welle

Quem tem TV a cabo, certamente ouviu falar da Deutsche Welle, especializada em levar informação e entretenimento para os alemães que moram fora do País. É a décima maior emissora do mundo, com um orçamento anual estimado em 275 milhões de euros. Na sede da empresa, em Voltasstrabe, ex-lado oriental de Berlim, atuam 427 pessoas e, desde 1992, são produzidos os programas televisivos em quatro idiomas (alemão, inglês, espanhol e árabe) e o portal de notícias, inaugurado em 1997. Na visita que fizemos à BBC alemã, conhecemos os três estúdios onde são gravados os telejornais e a revista eletrônica de esportes, cultura e ciência, mais as salas de edição. Da cidade de Bonn, onde tudo começou, em 1953, sai o conteúdo exclusivo de rádio, transmitido em 30 idiomas.

Dentre os jornais de circulação nacional – o tablóide Bildzeitung é o que vende mais -, o Tageszeitung é o menor, mas quem há de duvidar do seu poder? São 60 mil exemplares por dia, mesmo com poucos anúncios. Foi fundado há 32 anos, como fruto dos movimentos sociais e estudantis em Berlim, e está interessado, sobretudo, em política, ciência, ecologia e mundo. Quem carrega um periódico para casa, sabe que está comprando opinião e engajamento.

Entramos no Taz, como também é conhecido, pela editoria de Cultura. Oito editores fecham as duas páginas diárias, e cada um responde  por uma área temática: cinema, música, literatura, teatro, balé… A equipe ocupa uma sala em um dos andares do prédio pertinho do Checkpoint Charlie, o museu que conta a história do muro de Berlim e das pessoas que lutaram contra ele. Salutar. Voltando ao jornal, às 5 da tarde ele está pronto para impressão, em Frankfurt, e os jornalistas podem descer para o café no andar térreo. Se o fato justifica, até três novas edições são rodadas no decorrer da noite.

A revista Concerti se dirige a um segmento representativo da sociedade alemã, os ouvintes da música clássica. Apesar de não ser vendida, e sim distribuída em óperas, teatros e  e espaços culturais, vem dando certo como negócio, parece, graças aos anunciantes. Em Hamburgo, berço da publicação, são 25 mil cópias circulando. Em Berlim, 15 mil. Até o fim do ano, três outras cidades do país serão contempladas. Em suas mais de 80 páginas, a Concerti traz uma personalidade musical de destaque, artigos, entrevistas, reportagens e comentários. A crítica não prepondera. O que importa é antecipar a programação para o público saber escolher entre as centenas de concertos que ocorrem mensalmente na Alemanha.

Feijão preto, sushi e cerveja

Comida brasileira na Linienstrasse, 160

Comida brasileira na Linienstrasse

Empadinha de camarão, feijão preto, arroz, farofa e moqueca. Sim, é possível matar a saudade da comida brasileira em Berlim. Na Linienstrasse, em Mitte, fica o animado e bem frequentado Botequim Carioca, que tem à frente o próprio dono, Victor Rodrigues, servindo os pratos e conversando com os clientes. O restaurante foi aberto há dois anos, promove sessões de futebol e novela, e os funcionários, incluindo as cozinheiras, são todos do Brasil. A decoração segue o padrão descontraído dos botequins do Rio de Janeiro.  

Berlim é uma cidade cosmopolita e, se alguém me perguntar o que ando almoçando e jantando por aqui, respondo: massa, frutos do mar, sushi, yakissoba. Restaurantes italianos e asiáticos você encontra em toda esquina e são muito baratos e ligeiros, como o povo gosta. Os alemães não comem batata e chucrute diariamente. É uma visão tão folclórica quanto achar que baiano consome acarajé, vatapá e caruru como água. Conferir in loco a cozinha típica alemã é preciso. Sugiro a carne de porco (Schnitzel) sem medo de errar. Não tenham vergonha de perguntar o que há por trás das palavras ininteligíveis que lemos no cardápio – ele costuma ficar do lado de fora do estabelecimento. E mais: saber se o prato é picante e a porção dá para mais de uma pessoa, pois algumas refeições na Alemanha alimentam uma família. São conselhos que dou aos gourmets e gourmands de primeira viagem.

Iphone "desaparece" perto da tulipa de cerveja

Iphone "desaparece" perto da tulipa

A cerveja, sozinha, esta merece um capítulo à parte. Não chega à mesa ”estupidamente gelada” e tem tudo a ver com as rústicas kneipes (ou tabernas), mais populares do que os bares. Os jovens se esbaldam na bebida. É servida fartamente em canecas de meio litro ou mais, a depender da resistência ou do apetite do cliente. É difícil escolher qual provar num menu em que há dezenas, cada uma de um tipo, consistência, aroma, cor, sabor e teor alcoólico. Cada região da Alemanha tem uma forma particular de produzi-la e é bastante bairrista nesse quesito. Conheci três brasileiros no metrô que vieram aprender os segredos da sua fabricação.

Na companhia dos livros

Uso o metrô todos os dias para me locomover em Berlim. Já elogiei o sistema, mas não comentei o comportamento das pessoas nas estações ou dentro do veículo. A postura reservada, peculiaridade que não é dos alemães, faz parte. Mas, se você pede uma informação, há sempre alguém com boa vontade para ajudar. Até desviar o caminho, se for preciso, já fui beneficiada. Se diz que é do Brasil, o diálogo parece ficar mais fácil ainda. De uma maneira geral, somos simpáticos aos estrangeiros.

Os jovens que andam de metrô adoram um i-pod e, quando estão em turmas, ficam mais soltos e se permitem alguma transgressão, desde que isso não ultrapasse o limite do outro. A única vez que vi uma cena mais fora do comum, ela foi duramente reprimida por um passageiro. Dois rapazes, deviam ter no máximo 20 anos, bebiam e, subitamente, soltaram uma bombinha, um traque, talvez, dentro do vagão. O metrô tinha poucas pessoas, mas foi o bastante para causar susto. Eles desceram na estação seguinte.

Pergunto aos alemães que moram aqui se os skinheads ainda preocupam, pois percebo o grau de intolerância com atitudes que gerem ou expressem segregação. Vi em Berlim homossexuais de mãos dadas ou abraçados. O número de imigrantes é enorme. Brasileiros, sempre escuto. Os poucos táxis que tomei tinham iranianos ou iraquianos no volante. Russos e vietnamitas em serviços ou no comércio são inúmeros. Turcos, nem se fala. Há quem brinque e diga que Berlim tem tudo, menos alemão. Não é bem assim.

Das Buch, uma livraria charmosa

Das Buch, uma livraria charmosa

Mas, voltando ao metrô, algo chama atenção: como o tempo é utilizado na espera pelo transporte ou durante a viagem para a casa ou para o trabalho. Pesquisas recentes contradizem isso, apontam uma queda no hábito, mas os alemães leem – e não é pouco. Também nos restaurantes, leem livros, revistas e jornais. Pessoas de todas as idades leem. Não entro no mérito da qualidade. Mas vale lembrar que a Alemanha tem o maior encontro editorial do mundo, a Feira de Frankfurt. O preço do livro também é um estímulo. Há excelentes ofertas por 10 euros a unidade.  Encerro por aqui com a imagem da fachada de uma livraria que descobri no Hackeschen Markt, Das Buch (O Livro). Não é uma megastore, mas dispõe de farta variedade de títulos, para adultos e crianças, e os itens de papelaria são uma graça.

Buddy bears parade

Pessoal, eu já falei de ursos aqui nesse blog e vou falar mais uma vez. Imagine o que é desembarcar numa estação de metrô e ser recepcionada por uma centena deles – em formato escultural, sim – no começo de uma manhã gelada como a que fez hoje: a temperatura caiu absurdamente para 6 graus negativos e a previsão é que chegue a 10 abaixo de zero nesta madrugada. Faltam 35 minutos para a meia-noite.

berlim1 165Pois bem, estava a caminho da galeria Hamburger Bahnhof, quando desci na estação central e dei de cara com esse time aí ao lado. Cada uma das figuras mede 2 metros e representa um país reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). A exposição que me lembrou a Cow Parade faz parte de um projeto iniciado há nove anos, “United Buddy Bears”, já passou por cidades como Tóquio, Sydney e Buenos Aires e, desde 2009, alegra Berlim.

Os Buddy Bears (ursos camaradas) são pintados individualmente por um artista. O brasileiro é um urso indígena, com direito a cocar na cabeça e parca indumentária, como deve ser, e leva a assinatura de Gleice Mere, uma jornalista de 37 anos que se formou em Brasília e, depois, veio estudar na Academia de Artes Visuais de Leipzig. O trabalho é um alerta para a preservação das tribos que ainda restam no Brasil. 

Desde 2001, os Buddy Bears são leiloados, e a renda, revertida para organizações filantrópicas infantis. Colocados um do lado do outro, como se estivessem de mãos dadas, transmitem uma mensagem pra lá de animadora, que é a convivência pacífica dos diferentes povos e sua cultura. A autoria do projeto é do casal alemão Eva e Klaus Herlitz.

Humboldt é o futuro

O nome de Alexander von Humboldt (1769-1859) eu sempre associei à pesquisa e à inteligência. E passei a gostar mais ao saber que se interessava pelo Novo Mundo. Esteve na Ásia, América do Norte e América do Sul, realizando viagens exploratórias. Cada uma dessas incursões gerava um estudo importante da fauna, da flora ou da geografia do lugar. Era preciso vir a Berlim, cidade onde morreu, perto dos 90 anos, para respeitá-lo mais ainda.

A Universidade de Humboldt, na Unter den Linden

A Universidade de Humboldt, na Unter den Linden

Humboldt era também amigo dos artistas. Correspondeu-se com os escritores Goethe, Heine e Schiller e com o médico e pintor alemão Carl Gustav Carus, de quem vi uma exposição grandiosa na Alte Nationalgalerie. Dá para entender por que a 26ª Longa Noite dos Museus, no próximo dia 30, tem a obra de Humboldt como eixo temático. O evento para o qual se juntaram cerca de 60 museus e galerias atrai visitantes de várias partes do mundo. A proposta de “Berlim – capital da ciência” é mostrar a possível combinação entre arte, cultura e ciência.

É ainda o espírito de Humboldt, homenageado com uma universidade em Berlim – a mais antiga, fundada em 1810, na avenida Unter den Linden -, que está inspirando a construção de um grande fórum cultural na Ilha dos Museus. O endereço será o mesmo do Berlin City Palace, um dos maiores edifícios barrocos da cidade, danificado na Segunda Guerra Mundial e demolido em 1950. O espaço vai abrigar coleções e fomentar pesquisas não só do Museu Etnológico, como também da Universidade de Humboldt, do Museu de Artes Asiáticas e da Biblioteca Central de Berlim. O italiano Franco Stella assina o projeto arquitetônico. A previsão é que o Humboldt Forum esteja pronto entre 2014 e 2016.

Quando menos se procura, mais se acha

Estou na metade da viagem e sei que, mesmo que demorasse aqui mais um mês, não daria conta da quantidade de eventos culturais à minha disposição. No dia 30, Berlim abre a sua primeira Longa Noite dos Museus após os 20 anos da queda do muro. A cidade é uma fonte incessante de surpresas. Você nem precisa procurar para achar.

Fachada da Neue Nationalgalerie

Fachada da Neue Nationalgalerie

Queria muito conhecer a Neue Nationalgalerie, onde estão Edvard Munch e Otto Dix, entre outros grandes dos séculos 19 e 20. Mas que decepção ao ouvir que o acervo está fechado à visitação até março, me disse uma funcionária nada simpática…

Valeu a pena, sim, entrar no prédio projetado por Mies van der Rohe, uma caixa de vidro. Dentro não há paredes, apenas cortinas, e a mostra que pude conferir foi a do conceituado Thomas Demand, um alemão de Munique que se divide entre Berlim e Londres e já expôs no Brasil na Bienal Internacional de São Paulo, em 2004.

Suas 35 fotos, embora não pareçam, relacionam-se à história da Alemanha nos últimos 60 anos. A procura do significado (ou do sentido) dentro do vazio (do) cotidiano é uma constante. Demand nasceu em Munique, em 1964.

Pertinho do Instituto Goethe, na Oranienburger Strasse, eu não sabia, fica o C/O Berlin. Especialidade: fotografia. Vi três mostras lá. “We love hair”, comemorativa dos 111 anos de uma badalada marca presente nos melhores salões de beleza, é uma seleção de imagens – mais publicitárias do que artísticas – assinadas por Karl Lagerfeld, Russel James, Gabo e Olaf Hajek. As fotos de DonMcCullin (”The impossible peace”) e Jonas Bendiksen (”The places we live”), estas sim me interessaram mais.

C/O Berlin expõe Don McCullin

C/O Berlin expõe Don McCullin

McCullin dedicou a vida a um ofício: o fotojornalismo. A serviço do jornal “The Sunday Times”, flagrou cenas que só mesmo do front conseguiria. Ele cobriu a Guerra do Vietnã, a fome na Etiópia, o terror em El Salvador e a pobreza na Inglaterra.

A busca da dignidade quando não se oferece um mínimo de condições para que ela exista, mas que surge ou se revela para a câmera nos momentos mais difíceis norteia o trabalho desse inglês com mais de 70 anos. A exposição no C/O Berlin vai até fevereiro, é a primeira retrospectiva dele na cidade e abrange um período de 50 anos (1958-2008).

A instalação também de fotos do norueguês Jonas Bendiksen, tiradas em favelas da Ásia, África e América Latina, acaba dialogando com a obra de McCullin. Exibe o dramático problema da falta de moradia em áreas urbanas cada vez mais populosas. Esperança e humanidade não faltam no rosto de quem mais sofre.

Reichstag, um símbolo de Berlim

Numa sociedade hedonista como a que vivemos, fazer turismo muitas vezes parece uma atividade descompromissada com os fatos históricos. A verdade é que não dá para viajar pela Alemanha desconhecendo os traumas que o país sofreu. Em Berlim, em sucessivas situações me deparo com o fantasma da Segunda Guerra. Monumentos, praças e prédios foram bombardeados. A boa notícia é que muitos “resuscitaram” graças a uma penosa reconstrução. Ou deram lugar a projetos novos e arrojados, elaborados na prancheta de talentosos arquitetos.   

Reichstag sedia o Bundestag, o Parlamento alemão

Reichstag sedia o Bundestag, o Parlamento alemão

O Reichstag, erguido entre 1884 e 1894 para abrigar o Parlamento alemão, o Bundestag, conheceu em 1933 um dos capítulos mais tristes da sua existência. Foi incendiado pelos nazistas, que precisavam de uma boa desculpa para prender os comunistas. Uma exposição no domo assinado por Norman Foster coloca o visitante a par dos acontecimentos antes e depois. Foram dias tenebrosos aqueles.

Uma foto em especial me chamou a atenção, a do físico Albert Einstein, em 1930, assistindo a uma das sessões da casa. Com a subida de Hitler ao poder, ele, judeu, imigra para os Estados Unidos. O flagrante do Prêmio Nobel, assim como vários outros que documentam o dia-a-dia do Parlamento alemão, são de ES, fotógrafo que morreu no campo de concentração de Auschwitz.

Espelhos na cúpula criada por Norman Foster

Espelhos na cúpula criada por Norman Foster

O final da Segunda Guerra deixou marcas no edifício que é um símbolo do poder alemão. E elas ainda estão lá, para que todo mundo possa ver e lembrar. Quando os russos entraram em Berlim em 1945 fizeram questão de encher as paredes com seus nomes ou frases celebrando a vitória.

O edifício é imenso e não é o único do quarteirão parlamentar. As galerias estão abertas à visitação, e qualquer interessado em participar dos debates públicos, pode fazê-lo. A chanceler Angela Merkel não trabalha no Reichstag, mas tem um gabinete só seu lá dentro.

O prédio do Reichstag foi idealizado no século 19 por Paul Wallot, mas foi o arquiteto inglês Norman Foster quem deu a ele a feição atual: além do domo de vidro, criou um plenário pra lá de moderno, que permite a integração das seis tribunas, com a figura da águia de alumínio reinando sobre a cabeça dos 622 deputados. Os ideais democráticos da casa estão expressos na inscrição ao lado oeste do edifício: “Dem Deutsche Volke” ou “Ao povo alemão”.

Goethe multicultural

O início de um curso é sempre cercado de expectativa. Comigo, não foi diferente. Maquinava: como será o Goethe de Berlim? Pois já tenho uma resposta: uma Babel cultural, com sotaques de todo os cantos, e que, na hora de se comunicar, não se inibe. Os mais avançados esbanjam intimidade com a língua do poeta. Os iniciantes, como é o meu caso, apelam para o inglês e, raramente, para o francês.

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Flagrante da turma na hora do lanche

Meus colegas são dos seguintes países: Estados Unidos, Canadá, Espanha, Estônia, Polônia, Eslováquia, Malásia e Austrália. Walmor, de Florianópolis, e eu formamos a dupla de brasileiros.

Compatriotas, aliás, são pelo menos uns 10 no instituto. Jornalistas, conheço quatro, entre eles dois dos Camarões: Ernest Kanjo (entusiasmadíssimo com a primeira Copa do Mundo no continente africano) e Tabasi Parfait.

O Goethe ocupa hoje uma área nobre de Berlim, o Mitte, antes  pertencente ao lado oriental da cidade. Trata-se de um bairro singular, que alcançou uma valorização única na história.

 Onde existiam fábricas, agora há prédios restaurados, que abrigam centros culturais, com cinemas, galerias, teatros e restaurantes. Caso do Hackesche Höfe, com um pátio interno de deixar qualquer leigo impressionado com a arquitetura.   Lojinhas charmosas de roupas, calçados e design também estão a poucos metros da escola.

Vi um armarinho que só vendia botões, cada um mais lindo que o outro. Os preços não são baratos, mas cada peça tem um toque artesanal, diferente da produção em série das casas de departamento. Se você quer uma moda descolada, descontraída, vale a pena conhecer cada esquina do Mitte.

Inverno: romântico, mas nem tanto

Quando a professora do Instituto Goethe Margarete Barasch avisou à turma, no final da aula de sexta-feira, que seria prudente ir ao supermercado e estocar alimentos para o sábado e o domingo, ela estava dando um conselho pra lá de camarada. A meteorologia não falhou: nevou horrores e, para piorar, também ventou. 

Berlim: ruas ficaram cheias de neve no fim de semana

Berlim: ruas ficaram cheias de neve no fim de semana

Que o frio tem seu romantismo, ah, isso tem, especialmente para nós, brasileiros. Fui brindada, aliás, com um dos invernos mais rigorosos dos últimos dez anos na Alemanha. Os jornais locais deram manchete sobre o assunto e estamparam fotos na primeira página. As ruas de Berlim estão tomadas pelo branco, e não há limpeza que dê conta da quantidade de precipitações.

Homens em ação na limpeza das calçadas

Homens em ação na limpeza das calçadas

Os donos de estabelecimentos comerciais antecipam-se e fazem a sua parte para varrer o chão. O poder público tenta, mas em bairros mais distantes, somente nas avenidas e ruas de maior movimento é que se vê uma manutenção contínua. Como o volume de neve é enorme, então jogam-se areia e umas pedrinhas parecidas com cascalho nas calçadas para facilitar a locomoção dos pedestres. E aí é que mora o perigo. Por baixo da cobertura, estão as camadas de gelo mais insistentes.

O expediente é válido, talvez fosse impossível sair de casa de outra forma. Aqui faço uma observação: há idosos que não colocam o nariz na rua no inverno europeu. Bem fazem eles. Delegam a familiares ou terceiros pagamentos e compras. A questão que fica no ar: e quem não tem a quem pedir, faz o quê? Arrisca-se e expõe-se a situações como a que presenciei ontem, pertinho da Ilha dos Museus. Um homem alto e forte aparentando cerca de 55 anos escorregou, caiu e bateu a testa no chão. Uma cena lamentável. Foi a quinta queda que vi em menos de duas semanas.

O frio também nos obriga a comer mais. E a oferta de pequenas refeições, acompanhadas não raramente de uma bebida quente – chá, café, cappuccino… – é grande nos cafés, restaurantes e quiosques mais simples. Tem muita gente mastigando nas ruas e nas estações de metrô: brioches, croissants, sanduíches, chocolates, todo tipo de guloseima. Você é capaz de esquecer o almoço e o jantar. O problema da obesidade também afeta a sociedade alemã.

E um desabafo: a previsão do tempo, até quinta-feira, continua desanimadora. Podemos chegar a 8 graus abaixo de zero.